Ei, ó a AI aí, ó!

Um assunto que chamou a atenção durante essa semana foi o conjunto de resultados pouco animadores divulgados pelas empresas associadas à hype da AI.

Um assunto que chamou a atenção durante essa semana foi o conjunto de resultados pouco animadores divulgados pelas empresas associadas à hype da AI.

Aqui vale uma digressão sobre o 'associar-se' a uma hype. Em última instância, o que faz subir o preço de um determinado ativo subir é a prevalência de compradores em detrimento dos vendedores. O preço sobe porque tem mais gente comprando do que vendendo. O que torna esse processo interessante é quando a gente começa a tentar entender o que levou mais gente a comprar e menos gente a vender. Assumimos então que existem certas causas fundamentais que levam grupos de investidores a decidir comprar ou vender a determinados preços, em determinados períodos. A essas causas damos os nomes de fatores, e o correto entendimento sobre o funcionamento desses fatores deveria ser o dia-a-dia do analista do mercado financeiro.

Não existe uma definição fechada do que configura ou não um fator. Existem fatores de estilo (tamanho, valor), fatores estatísticos (momentum, nível), fatores macroeconômicos (inflação, crescimento) e outros tantos que compõem o zoológico de fatores das academias de finanças. O exagero é a consequência natural da vontade de explicar o comportamento das coisas, associado ao desejo de ter um quinhão do conhecimento mundial que você pode chamar de seu. O esforço explicativo é honesto, afinal, sem capacidade preditiva não existe atuação humana, o que, por sua vez, não existe sem padrões que se repetem. Mas existe também a necessidade do usuário do conhecimento de separar o que é útil do que é apenas espuma. Isso deveria ser o papel das instituições científicas, mas tá mais do que óbvio que existe um problema fundamental nas políticas de incentivos associadas à produção de conhecimento que vai precisar se endereçado em algum momento. Esse momento não é agora, voltemos ao tema de interesse.

A associação entre o fator e o preço do ativo é dada por uma função de precificação que geralmente é uma combinação linear entre os fatores.

Ilustração do artigo

Não precisaria ser (e às vezes não é: convexidade em títulos de renda fixa, p.ex.), mas perder a capacidade explicativa de uma combinação linear tem um custo muito alto, e só deve ser feito se compensado por um benefício muito grande da capacidade explicativa do modelo.

Agora podemos falar sobre as empresas que estão 'associadas à hype da AI'.

O ChatGPT revelou para o mundo capacidades tecnológicas que muito provavelmente vão ter um grande impacto no mundo. Rapidamente essa frase razoável se tornou: a AI vai engolir o mundo e qualquer coisa fora disso está sob sério risco de obsolescência. Geralmente essas afirmações retumbantes são exageradas, o que não quer dizer que o impacto não vem.

Ilustração do artigo

Acredito que a gente pode estar começando AI generativa pode estar flertando com o vale da desilusão, o que é positivo, primeiro porque a sociedade como um todo vai conseguir gradualmente voltar a falar de outras coisas, e depois porque esse é o momento em que o real valor da tecnologia é identificado e soluções perenes aparecem e dinheiro de verdade começa a ser feito.

Sobre dinheiro de verdade começar a ser feito.

A predominância de modelos de negócio escaláveis trouxe pra gente a ubiquidade de dinâmicas de "winner takes all". O medo de ser um "loser who takes nothing" leva os alocadores de capital que esperam ter uma fatia relevante do emergente mercado enderecável a investir contundentemente. E com AI não foi diferente. Investimento é ótimo, gera empregos, renda e, talvez mais importante ainda, expectativas de um mundo maravilhoso e cheio de riqueza. Acontece que se esse investimento não se converte em receita, a quebra das expectativas se convertem em vendas. E quanto tem mais gente vendendo do que comprando, a gente já viu o que acontece.

Alguns sinais de que a AI não é mais a mesma:

  • Ao invés de entregar o que a gente nem sabia que podia querer, as atualizações da OpenAI são mais promessas que concretas. A versão Her do ChatGPT ainda não veio e parece que esqueceram de falar sobre isso

  • Parece que nem as centenas de milhões de usuários estão sendo suficientes para financiar a draga de dinheiro que é rodar esses modelos. Há quem diga que só tem mais 12 meses antes que ex-ONG precise pedir um adiantamento da mesada do papai Nadella.

  • Ao mesmo tempo em que Elon Musk tenta associar a Tesla a hype da AI, segue adiando os prazos (tá, isso não é novidade) para as demonstrações do real impacto dos novos produtos AI-driven da montadora de carros elétricos.

  • Os revolucionários notebooks Snapdragon-driven da Microsoft com Copilot+ inseridos em todos os buracos do sistema operacional não trouxeram grandes novidades para a vida de ninguém

  • Ainda não vemos grandes ganhos de produtividade no desenvolvimento de software, e surgem inclusive algumas evidências da queda na qualidade do código produzido usando o Copilot.

Na medida em que a empresa se associa a narrativas de inteligência artificial, relação entre seu preço e o estado da AI nas narrativas de investimento aumenta. E pau que dá em chico dá em francisco também, e as ações associadas à hype da AI sofrem com essas notícias ruins. E como a hype é gigante, até a falta de notícia boa é notícia ruim.