Existe uma dificuldade muito grande no ato de gerir expectativas. Quantas vezes um "mas você prometeu" foi proferido pelo prometido diante de uma expectativa frustrada do prometedor? Se num relacionamento entre duas pessoas já é difícil fazer isso, imagina a complexidade de guiar expectativas de um coletivo tão afetado quanto o mercado. É uma arte, e sempre comportando uma probabilidade não desprezível de fracasso.
A displicência que aconteceu na reunião do COPOM em Maio de 2024 cobra seus preços até hoje. O viés da retrovisão permite que a gente olhe para trás e conclua com certa tranquilidade que durante um governo de esquerda com fama de gastador, um comitê dividido entre diretores governistas dovish e diretores do governo anterior hawkish levaria a uma grande crise de confiança no compromisso que a entidade monetária possui com as metas fiscais. No jogo das expectativas, o papel da inferência sobre as reais intenções se mostra preponderante.
E foi sobre intenções que se tratou a última ata do comitê (06 ago 2024). A frase que ficou marcada nas manchetes dos veículos especializados foi a seguinte:
"o Comitê, unanimemente, reforçou que não hesitará em elevar a taxa de juros para assegurar a convergência da inflação à meta se julgar apropriado".
E a pergunta que vem fazendo preço desde então é: Mas o que será que isso significa de fato?
O principal fator que vinha preocupando os operadores do mercado era o câmbio. O Dólar custando R$ 5,80 e subindo representa uma pressão inflacionária relevante, dada a dependência fundamental de importações para a economia brasileira e um retorno à inflação era apenas uma questão de tempo. Mas boa parte do que estava pautando o preço da moeda era a descrença sobre o comprometimento da autoridade monetária com as metas de inflação, representada aqui pela incerteza acerca da susceptibilidade da entidade supostamente independente a pressões governistas por juros mais condutivos ao desenvolvimento econômico.
Daí a necessidade de mostrar para o mundo que com o BC não se brinca. E como toda comunicação, seja ela do BC ou não, jogamos as palavras ao vento e torcemos pela congruência do nossa interlocutora, sobre a qual não temos qualquer ingerência sobre como interpretará nossa mensagem. E é um pouco do que vem acontecendo. A curva de juros abriu, as opões de COPOM passaram a registrar grandes probabilidades de aumento na taxa de juros e, felizmente, o dólar caiu.
Para que parte da minha audência não me chame de imbecil, naturalmente que vem acontecendo uma reprecificação estrutural do dólar diante do aumento da probabilidade de cortes de juros nos EUA e o arrefecimento da economia, mas estou tentando focar aqui na componente BRL da moeda. Nossa moeda se valorizou diante de um BC mais coeso e comprometido com o mandato, custe o que custar.
Acontece que, na medida em que o dólar abaixa, e as tiragens de inflação se mantem flertando adentrar nas bandas superiores da meta de inflação, o aumento dos juros vai se tornando desnecessário. Ou seja, o que o BC fez para não precisar subir juros foi dizer que subiria os juros.
Acontece que na medida em que se torna mais provável que subir juros não é necessário, o mercado panica com a possibilidade dessa demonstração de força ter sido apenas retórica e não representar intenções reais de comprometimento com a meta inflacionária.
Inferir intenções é uma merda, e é por isso que é muito saudável quando você está inserido em uma dinâmica relacional explícita de benefício mútuo. Isso te permite se distanciar do esforço de inferir intenções, e focar em resolver a tarefa que lhe cabe. Naturalmente que isso parte do pressuposto de que você é uma pessoa competente com quem os outros querem de colaborar. Se esse não é o caso, você é uma fonte de problemas para o seu entorno.
A situação que fica então é que o BC talvez tenha, mais por interpretação do mercado do que explicitamente pela sua comunicação, se atrelado no presente a um futuro que não precisaria acontecer.
Se a situação melhora porque ele se mostrou Hawkish e o cenário dispensa aumento de juros e ele não aumenta os juros, é possível que ele esteja ruindo o próprio alicerce que sustenta a confiança que trouxe as expectativas de inflação para níveis aceitáveis. Um emaranhamento temporal interconectado pela administração de expectativas.