Parte I: o carrego negativo de viver.
A grande vantagem de viver em sociedade é que pertencer a um grupo te permite o gigantesco benefício de ser insuficiente. Ou seja, você não precisa ter todas as habilidades necessárias para viabilizar sua existência no mundo, você pode remunerar alguém do seu grupo para fazer uma parte delas para você. O contraponto dessa dinâmica é que a sua mera existência passa a ser associada a um custo, o custo da sua insuficiência. É esse custo que precisa ser financiado por serviços que você presta de volta para a sociedade. É como se viver tivesse carrego negativo, e você precisasse sempre recompor o custo da sua existência.
Daí surge a primeira etapa da jornada do investidor. Um débito. Antes de você nascer seus pais assinaram um contrato de adesão onde consta uma cláusula sobre o custo de carregar esse amontoado de carbono que constantemente consome energia para postergar o inevitável apodrecimento da carne e retorno ao subconjunto das matéria inanimada. É dizer: você precisa comer, ter um abrigo, acesso a água potável, e possuir meios para garantir alguns direitos básicos que geralmente giram em torno de cercear o direito dos outros de usufruir de você do jeito que gostariam.
E pior. O prazo da dívida é extremamente curto. Ao contrário do Zé Colmeia, ao ser humano não é facultada a recuperação judicial da natureza: hibernar durante tempos escassos e reduzir o custo de existência para consumir reservas energéticas em tempos de abundância. Seria ótimo se eu pudesse simplesmente dormir quando o Ibov acumula uma série de novas mínimas e só acordasse quando os juros voltassem pra zero de novo.
Essa primeira etapa é inevitável, a mazela da condição humana biologicamente alavancada é inegociável e talvez a base de toda a dinâmica econômica.
A segunda etapa é, portanto, o antídoto natural para a primeira: uma fonte de receita. É preciso quitar as dívidas, remunerar aqueles que suprem as diversas necessidades que você não pode, ou não quer, suprir sozinho. E só existe uma maneira de ser remunerado: suprindo a necessidade de alguém que não pode, ou não quer, supri-la sozinho. Para a grande maioria das pessoas isso se dá através do ato de trabalhar e para umas algumas, não tantas, outras através do ato de investir.
Trabalhar é trocar tempo por dinheiro. Você oferece as habilidades, que investiu tempo para adquirir, e que levam tempo para executar, para alguém que precisa delas e recebe dinheiro em troca. E investir é correr o risco de se separar do seu dinheiro por algum tempo, suprindo a necessidade que alguém tem de capital.
E aqui um pouco sobre o dinheiro e sua inevitabilidade. Quanto mais entranhada e complexa é uma sociedade, mais especializado um indivíduo pode se permitir ser. Isso implica que mais diversa vai ser a gama de necessidades que precisarão ser supridas por outras pessoas. Tenho certeza que não sou o único que olha para aquela colega de trabalho e fica igualmente impressionado tanto com suas habilidades técnicas quanto com sua incompetência para lidar com os problemas do dia a dia. Essa dinâmica torna quase inevitável o surgimento de algum artefato que permita esse intercâmbio de maneira universal. É o papel do dinheiro. Tempo é dinheiro porque tempo é consumido para gerar dinheiro e dinheiro é tempo porque ele compra o tempo que seria necessário para suprir alguma necessidade sua.
A interação entre essas duas etapas geralmente recebe algum nome parecido com 'fluxo de caixa'. E um fluxo de caixa saudável é uma precondição para que uma cidadã comece a pensar em investir. Ou seja, é preciso gerar mais receita do que você consome para que você possa se dar ao luxo de expor seu capital a riscos por tempo suficiente a ponto de ser remunerada por isso.
Acontece que investir não é um luxo.